Sergio da Motta e Albuquerque
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fonte:Youtube |
No início dos anos 60 eu e minhas irmãs vivíamos, com nossos pais, em um condomínio fechado na Zona Norte do Rio de Janeiro. Lá vivia também uma família alemã. Uma casal idoso que trazia sua neta para brincar conosco. Não sei muito bem por quê: era gente fechada que não mantinha contato com nossos vizinhos. A casa deles era diferente, quase toda fechada, e parecia dizer à nós todos que eles queriam ficar ali sem ser incomodados.
Mas eu lembro que nós, eu e minha irmã mais velha, costumávamos frequentar a casa e brincar com a garota. Seu nome era Martine, e ela era neta do Sr. Franz e da Dona Katharina. Ela nunca conseguiu entender muito bem o Brasil. Fazia confusão, e acreditava que nós (eu e minha irmã) éramos uma gente meio árabe, meio espanhola. Eu ficava entretido com os devaneios e as interpretações teatrais de Martine sobre o que ela imaginava ser a minha família. Ela dançava, fingia tocar castanholas e representava um mundo que estava tão distante dela quanto o meu. Era divertido. E ela era bonita. Alta, loura e inteligente.
“Eu também tenho uma tia, que se chama Tereza Martinez de La Vega”, dizia ela. Era o tempo do “Zorro” , da televisão. E de Dom Diego de La Vega. O pai do Zorro. Nós não entendíamos muito bem o que ela queria dizer com aquilo: nós falávamos português e não tínhamos parentes árabes ou espanhóis. Mas ela insistia em nos perceber como uma mistura entre os dois.
Um dia nós fomos procurar nossa amiga germânica, quando notamos a confusão na porta da casa de seus avós. Estranhamos bastante: nunca havia ninguém ali, e eles não mantinham relações muito próximas com o pessoal do bairro. Naquele dia foi diferente.
Quando chegamos mais perto, eu ouvi a Dona Katharina dizer: “- Eles mataram o Franz. Mataram o Franz!”. Isso bastou para nos fazer voltar para casa. O assunto era sério. Estava nos jornais. Lembro de meu pai a ler sobre o caso. Ninguém comentou nada conosco. A infância era bem diferente, naquela época.
Nunca soubemos o que de fato aconteceu com o sr. Franz. Seria ele um nazista fugitivo? Por isso eles eram tão reclusos? Onde estava nossa amiga, e quem eram eles, afinal?
O tempo passou e nós nunca tivemos resposta sobre aqueles acontecimentos daquele dia distante. Dona Katharina nunca mais foi encontrada depois daquela manhã. E nós também nunca mais vimos Martine.